segunda-feira, 22 de março de 2010

Como matar um amigo

Um amigo meu, com nome de P sempre dizia que eu sabia como falar, mas que não tinha nada para dizer. Acho que ele estava certo, por que muitas vezes pensei, ou melhor, tentei escrever qualquer coisa só para ter algo escrito, mas tudo não passava de uma masturbação estilística. Fato? Eu não tinha assunto. Faltava-me uma estória.


Eis, porém, que certo dia, meu amigo P aparece morto sob condições no mínimo misteriosas, em uma situação que, por respeito aos mais sensíveis, não ouso reproduzir. Basta dizer que ele morreu por onde pecava e isto me deu o assunto para supor as verdadeiras causas do que na minha opinião é o maior assassinato que já tomei conhecimento.


P. saiu mais cedo do trabalho neste dia fatídico, algo que, acredito, foi crucial para sua morte. Exatamente neste momento uma outra pessoa passava pela rua e chamou-lhe a atenção, quem era esta pessoa? Uma incógnita, quem ela era não teve importância nessa história...ou teve? Bom, ainda não sei, mas P a seguiu com os olhos até onde pôde e depois, para continuar a seguindo, ele usou as pernas. Estranho como andava rapidamente, talvez mais rápido do que jamais imaginara, aquela era uma daquelas pessoas que correm andando. Isso: ela começou a correr, pois temia os olhos de P, embora, na verdade, seus olhos fossem idiotas, no fundo ela, a outra pessoa, temeu aquele estranho a seguindo.


A pessoa virou uma esquina. P virou em seguida, mas já ela desaparecia na multidão. Meu amigo, incapaz de fazer qualquer coisa, pois, por alguma razão, lhe parecia muito certo seguir aquela pessoa, resolveu que tudo que restava era voltar para seu antigo caminho. Ele, no entanto, não percebeu que, agora, aquela pessoa o seguia e acompanhada de outras várias. Por alguma razão meu amigo sequer olhou para trás, se o tivesse feito teria percebido que outras pessoas se juntavam a primeira e que, agora, já passavam de um pequeno exército que crescia a cada passo, pois outras pessoas seguiam o grupo. No fundo, todos seguiam a primeira pessoa, a que meu amigo seguiu por um tempo, e, como esta agora o seguia, levava com ela as pessoas.


P entrou no ônibus e sentou-se nas últimas cadeiras. Em seguida a multidão entrou também no ônibus, fato que ele tomou por normal devido ao horário, em que muitos outros saiam do trabalho. Talvez devesse ter prestado maior atenção, com toda certeza do mundo devia tê-lo feito. Mas não, nem percebeu que ao descer do ônibus, este continuou onde estava, pois até o motorista e o cobrador o seguiam. Os carros foram sendo abandonados conforme passava e com isso as fileiras da multidão iam aumentando. Até mesmo as pessoas que apareciam na televisão, deixavam o que faziam, para em seguida surgirem de algum canto de rua para seguir a pessoa que seguia meu amigo. Já eram tantos, imagino se eu não estava lá. Não sei. O povaréu ganhou tamanha massa que somente uma das avenidas não lhe era suficiente, e todos formavam como se fosse uma seta que apontava ameaçadoramente para P, que nada percebia. Os aviões mudaram de curso, os barcos se atulhavam para que mais pessoas pudessem desembarcar em juntar-se a multidão. O chão tremia sobre a marcha, as casas e prédios iam sendo carregados pela turba, como uma onda maciça por onde passava. E foi ai que ele, meu amigo percebeu a coisa que lhe vinha nos calcanhares, aquele mundo de gente que seguia aquela pessoa. P saiu correndo, mas a massa também o fez e ainda mais rápido, pois seguiam a pessoa que corria andando, por isso tinham de ser rápidos. Meu amigo entrou em seu prédio para esconder-se, mas as pessoas entraram também e com tamanha violência que as paredes foram derrubadas e o edifício todo se abalou. Ainda sim, P continuou correndo, agora escada a cima, conforme o prédio caia, mas as pessoas iam se amontoando sobre os entulhos e isso lhes criava camadas por onde continuavam subindo, como se as pessoas fossem água e aquela pessoa, uma bóia que acompanhava a enchente. Meu amigo trancou-se em seu quarto.


No fim ele foi espremido, carregado e trucidado pela multidão enquanto aquela pessoa o procurava em meio ao caos, mas nunca mais o encontrou.


Meu amigo foi morto pelo mundo. Pelo menos é nisso que eu acredito.

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