sexta-feira, 26 de março de 2010

Redenção.

Sempre vinha. Trôpego, trançando as pernas, com o V da camisa abaixo do botão da vadiagem e a barba lhe sujando a cara, já azeda de suor. Vinha sempre de tardezinha, quando saía do serviço, sempre muito amargo por causa do resto do dia.
Descia do ônibus no ponto que deixava o bar no caminho de casa, mas sempre, entre a casa e o bar, estava a velha louca, que devia pensar que deus é surdo, pregando aos berros as palavras e os pecadores. Só que ele sempre estava muito bêbado pra prestar atenção. Saía do ônibus e escorava no balcão, pedia uma. Depois, lá pela terceira ou quarta, ele pulava pra uma mesa e ali seguia metódico: enchia o copo, bebia até a metade, depois enchia de novo, cerveja atrás de cerveja, e só bebia a segunda metade quando era pra ir embora.

Levantava. Pra lá, pra cá. E lá. Enfiava um pé na frente do outro. Chutava o calcanhar. Tudo em borrões. Cinza. Se mexendo com ele. E cá. Aprumava um rumo. Reta, reto, mas nem tanto. E cá. Velha louca, mancha preta. Lá. Tramava a volta. Cá e lá-lá-lá-lá-lá. Tombava. Saco de lixo no chão. Pulando na frente. Velha louca. Blá-blá-blá. Deus e o diabo. Borrado, sem nexo. Avesso. Lá. Contornava, outro passo. Mais um. Menos um e mais meio. Ia. Lá. Esqueceu da escada, da porta, da chave. Mira...Miiiiiiiiira, de nooooooovo. Porta? Larga. Sofá ali, no jeito. O sofá. Blá-blá-blá que não para! Deus, deus, de-úuuuuuus. Di...dia...bo. E Apaga.

O despertador toca, afinal já é de praxe, é sempre bom ficar de aviso. Por isso ele deixa o despertador pronto quando sai de casa, na certeza de que não vai falhar por algum esquecimento etílico. Toda manhã é uma luta para abrir os olhos, para respirar por vontade, pra levantar trocar a roupa lavar a cara e sair de novo. Só que aquele dia estava diferente, sentindo uma coisa fora do comum, uma certa pontada de saudade de algo que não conseguia precisar. Isso lhe amargou ainda mais o dia. Ele, que quase não trabalhava, não trabalhou de fato e nem fez cara de quem trabalhava. Passou o dia todo com a cara metida nas mãos, as mãos metidas nos braços e os braços metidos na mesa. A pontada doía em suas costelas como se faltasse alguma coisa, como se doesse, mas quando descobriria aonde, a dor aparecesse em outro lugar. Foi assim até a hora de ir embora. Quando ele levantou da mesa e largou suas coisas, sentiu a boca salivando, sentiu, até, uma câimbra na língua. No caminho até o ponto sentia o suor escorrer nas pernas e braços, enquanto contava as quadras e esfregava as mãos nas coxas.

No que desceu seguiu sem parar pro bar, mas uma coisa estava estranha, a velha louca que sempre gritava, estava quieta bem perto da mesa em que ele sempre ficava a olhando. Quando ele se chegou perto, a velha, velha companheira, apertou os olhos como se enxergasse muito alem da vista, em seguida levantou o indicador e o cravou no peito dele. Como se isso já bastasse como recado. Um recado que o deixou sem jeito quando todo mundo da rua olhou para os dois. Depois a velha olhou para cima, e depois se virou e depois foi embora.

O amargo, a pontada, a velha, desaforos da vida que tiram o que alguém tem, tinha e o que um dia teria. Ele se deu com isso e não gostou. Sentou direto na mesa e pediu de pronto uma cerveja e uma dose de conhaque. Dupla. Dessa vez não esperou meios, bebeu tudo sem pegar fôlego, respirando entre um copo e uma dose quando não tinha mais ar nos pulmões. De novo borrão. Tudo em cinza. Lá no fundo? Algo. Algo beeeeem looonge. Uma cor. Longe e longe. Outra Cor. Longe. E muitas cores. E Não tão longe assim, cores que não tinham fim. E estoura na sua cara! Uma explosão brilhosa! Mistura que dava medo. Alegria. Paz. Algo. Sem nome no mundo. Todo o blá-blá-blá vivo dentro dele! E subiu. Que belo balão de pinga, se vendo voando com a luz. Muito juntos. Em paz. Um.

Foi aparecer de novo algumas semanas depois, estava barbeado de cabelo penteado e bíblia ensovacada. Fechara o botão da camisa, o da vadiagem, aquele que o marcava tão bem. Deixou de lado o bar, o ponto, o amargo, mas nunca mais viu aquela senhora. Homens de brancos a levaram.

Ele agora trabalhava bem, o tempo todo atento e dedicado. Quando descia do ônibus cortava caminho para nem sequer tanger o passado. Passava pelo bar como um flecha e tomava uma outra posição, a mesma que um dia tinha sido da velha. Lá chegava e lá ficava. Proferindo a Palavra para todos que passavam, sempre muito crente de que todos escutavam. Agora não mais bebia, somente rezava. Com tanto ardor e tanta vontade que até perdia-se, mas nunca mais se encontrou com aquela maravilhosa Luz.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Como matar um amigo

Um amigo meu, com nome de P sempre dizia que eu sabia como falar, mas que não tinha nada para dizer. Acho que ele estava certo, por que muitas vezes pensei, ou melhor, tentei escrever qualquer coisa só para ter algo escrito, mas tudo não passava de uma masturbação estilística. Fato? Eu não tinha assunto. Faltava-me uma estória.


Eis, porém, que certo dia, meu amigo P aparece morto sob condições no mínimo misteriosas, em uma situação que, por respeito aos mais sensíveis, não ouso reproduzir. Basta dizer que ele morreu por onde pecava e isto me deu o assunto para supor as verdadeiras causas do que na minha opinião é o maior assassinato que já tomei conhecimento.


P. saiu mais cedo do trabalho neste dia fatídico, algo que, acredito, foi crucial para sua morte. Exatamente neste momento uma outra pessoa passava pela rua e chamou-lhe a atenção, quem era esta pessoa? Uma incógnita, quem ela era não teve importância nessa história...ou teve? Bom, ainda não sei, mas P a seguiu com os olhos até onde pôde e depois, para continuar a seguindo, ele usou as pernas. Estranho como andava rapidamente, talvez mais rápido do que jamais imaginara, aquela era uma daquelas pessoas que correm andando. Isso: ela começou a correr, pois temia os olhos de P, embora, na verdade, seus olhos fossem idiotas, no fundo ela, a outra pessoa, temeu aquele estranho a seguindo.


A pessoa virou uma esquina. P virou em seguida, mas já ela desaparecia na multidão. Meu amigo, incapaz de fazer qualquer coisa, pois, por alguma razão, lhe parecia muito certo seguir aquela pessoa, resolveu que tudo que restava era voltar para seu antigo caminho. Ele, no entanto, não percebeu que, agora, aquela pessoa o seguia e acompanhada de outras várias. Por alguma razão meu amigo sequer olhou para trás, se o tivesse feito teria percebido que outras pessoas se juntavam a primeira e que, agora, já passavam de um pequeno exército que crescia a cada passo, pois outras pessoas seguiam o grupo. No fundo, todos seguiam a primeira pessoa, a que meu amigo seguiu por um tempo, e, como esta agora o seguia, levava com ela as pessoas.


P entrou no ônibus e sentou-se nas últimas cadeiras. Em seguida a multidão entrou também no ônibus, fato que ele tomou por normal devido ao horário, em que muitos outros saiam do trabalho. Talvez devesse ter prestado maior atenção, com toda certeza do mundo devia tê-lo feito. Mas não, nem percebeu que ao descer do ônibus, este continuou onde estava, pois até o motorista e o cobrador o seguiam. Os carros foram sendo abandonados conforme passava e com isso as fileiras da multidão iam aumentando. Até mesmo as pessoas que apareciam na televisão, deixavam o que faziam, para em seguida surgirem de algum canto de rua para seguir a pessoa que seguia meu amigo. Já eram tantos, imagino se eu não estava lá. Não sei. O povaréu ganhou tamanha massa que somente uma das avenidas não lhe era suficiente, e todos formavam como se fosse uma seta que apontava ameaçadoramente para P, que nada percebia. Os aviões mudaram de curso, os barcos se atulhavam para que mais pessoas pudessem desembarcar em juntar-se a multidão. O chão tremia sobre a marcha, as casas e prédios iam sendo carregados pela turba, como uma onda maciça por onde passava. E foi ai que ele, meu amigo percebeu a coisa que lhe vinha nos calcanhares, aquele mundo de gente que seguia aquela pessoa. P saiu correndo, mas a massa também o fez e ainda mais rápido, pois seguiam a pessoa que corria andando, por isso tinham de ser rápidos. Meu amigo entrou em seu prédio para esconder-se, mas as pessoas entraram também e com tamanha violência que as paredes foram derrubadas e o edifício todo se abalou. Ainda sim, P continuou correndo, agora escada a cima, conforme o prédio caia, mas as pessoas iam se amontoando sobre os entulhos e isso lhes criava camadas por onde continuavam subindo, como se as pessoas fossem água e aquela pessoa, uma bóia que acompanhava a enchente. Meu amigo trancou-se em seu quarto.


No fim ele foi espremido, carregado e trucidado pela multidão enquanto aquela pessoa o procurava em meio ao caos, mas nunca mais o encontrou.


Meu amigo foi morto pelo mundo. Pelo menos é nisso que eu acredito.